quarta-feira, 11 de março de 2009

Qual Barbie,qual,quê!


A minha boneca de celulóide, ela sim, era mesmo uma boneca…Não tenho retratos mas a imagem dela está tão presente na minha lembrança que se fosse boa desenhadora, reconstitui-la-ia de forma perfeita. Boneca – bebé, gorduchinha, corpo de cheiinho de serradura (?) envolto num pano rosa tal qual uma pele sedosa. Os bracinhos e pernas eram gordinhos um tanto encolhidos com refegos próprios de criatura bem alimentada e cuidada. E a carinha rechonchuda, de boquinha rosada, narizinho delicado, olhinhos pestanudos que fechavam e tudo! A cor da pele era rosadinha como convinha. O único tom que destoava ao rosa era o traçado das pequeninas sobrancelhas e a pintura levemente castanha que prenunciava uma futura cabeleira. A minha boneca era brasileira, pelo menos eu sempre assim a imaginei. Tinha atravessado o Atlântico no Vera Cruz quando este paquete ainda fazia pacíficas viagens entre o Velho e Novo continente. Pois a minha Lília ainda hoje existe. Tem mais de 50 anos! Existe na minha memória…Teve um fim muito triste a minha boneca! Foi o primeiro grande desgosto da minha vida! Ora oiçam!


Um dia, nas férias grandes com certeza, teria 13,14 anos, corri de tranças ao vento até à horta do avô. Ele devia lá estar, atarefado na rega do feijão verde. O grande tanque deveria estar a ser despejado e eu poderia trepar o muro, dar um mergulho, refrescar-me na água fria enquanto ia tirando as folhinhas verdes e castanhas que iam tapando o ralo por onde a água escoava. Cheguei à horta ,a porta estava aberta, mas o avô não estava na rega .Talvez estivesse no caramanchão deitado na cadeira de lona com o jornal no colo a descansar ao mesmo tempo que observava o moinho a puxar a água para encher o tanque… Corri ao caramanchão mas o avô também ali não estava. Olhei, espreitei, não vi o avô mas…sobre o tampo da grande mó que servia de mesa, à sombra da grande nespereira onde tantas vezes baloicei , junto àquela verde avenca que no meio da mó lhe acentuava a frescura, estava a minha querida boneca …quase desfeita! Os braços, as pernas, a carinha, haviam amolecido após dias aos relento…os olhinhos abertos pareciam pedir ajuda…e o meu coração teve o primeiro baque de uma perda irremediável. Agarrei nela contra o peito …e corri, corri , até casa …e chorei ,chorei até hoje!

2 comentários:

carlos disse...

mais uma lágrima, não para a boneca que era tua, mas para a horta,avô e tudo que a envolvia.

mdsol disse...

Oh! Não chores
E sabes? Também não gosto da Barbie
:)